TEXTO CRÍTICO DO CURADOR WAGNER NARDY

Identidade e pertencimento fazem parte do repertório conceitual do artista carioca Sergio Allevato.

Sergio se apropria de uma icnografia aparentemente inocente para discutir as formas de manutenção de discursos coloniais. No nível pessoal seu trabalho fala sobre ancestralidade e no nível político sobre soberania e submissão.

Ao usar imagens que remetem ao "life style", Americano e Europeu, a partir de signos amplamente entronizados em nossa cultura, muitas das vezes de maneira irônica até, o artista se questiona sobre nossa formação e ação como povo.

 

A situação de pássaro e gaiola presente em sua prática, permite reflexão sobre novas formas de prisão - principalmente aquelas ligadas a preconceito e racismo - bem como, das possibilidades acerca da liberdade, mesmo em total tempo de anomia e falência das instituições.

 

Através de uma estratégia de tons festivos, o artista desbrava um universo de decadência e ruína.

 

A Passárgada de Sergio é um lugar bem diferente do idílio poético. Separatista, classicista e corrupta onde é mesmo através das famigeradas 'fake news' que há o estabelecimento de um tendencioso e privilegioso caos.

 

Ainda muito longe de si mesmas, raças e gêneros brasileiros lutam por reconquistar antigos direitos, manter outros e ainda sobreviver em meio a intervenção do ódio.

 

Remetendo a uma espécie de Gilberto Freyre às avessas a obra do artista nos apresenta a um novo patamar de casa e senzala em escala global, de forma, a partir dessa análise, restabelecer padrões de controle e submissão contemporâneas. Neste triste cenário da política mundial atual, continuamos carentes de discursos identitários legítimos, distante da exaltação de nossa raça e nossa cor e de costas viradas a nossos muitos deuses. Eternamente punidos por aquele primeiro mundo perfeito e ansiado. Estamos vivendo intensa diáspora. Nunca fomos tão ausentes e nunca precisamos tanto de nós mesmos.                                                              

Wagner Nardy